O Olhar e o Ser
Por Hector Othon
Há um instante em que tudo se cala,
e o que resta é o olhar do outro.
Não há janelas, não há fuga —
apenas esse olhar que me vê,
me interpreta,
me define.
E eu começo a existir ali,
no contorno que ele me dá,
como uma sombra moldada
pela luz alheia.
O inferno, então, não é o outro.
O inferno é esse instante sutil
em que deixo de ser possibilidade
e passo a ser aquilo que o outro pensa que sou.
Mas há um segredo:
eu posso permanecer livre,
mesmo dentro do olhar que me observa.
Posso habitar o espelho sem me aprisionar nele.
Posso me deixar ver —
e ainda assim, continuar sendo movimento,
mistério, respiração.
Porque existir é sempre aparecer,
mas também é saber que nenhuma visão me contém.
Que o que o outro vê
é apenas um reflexo do instante,
não o meu ser inteiro.
Então, ao invés de fugir do olhar,
eu o acolho.
Deixo que ele me veja,
mas permaneço dentro,
vivo, vasto, inacabado.
E o inferno se desfaz.
Resta apenas a comunhão —
o encontro entre dois seres que se olham
sem se reduzir,
sem se prender,
sem se perder.
E nesse espaço transparente entre mim e o outro,
nasce o verdadeiro céu da convivência:
aquele onde cada olhar é uma porta
para a liberdade de ser. ✨
te amo
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