A Travessia Humana: Entre o Silêncio e a Luz
A vida de um ser humano é uma travessia. Não uma linha reta, mas uma curva de dança que se escreve sobre o solo do mistério. Nascemos com a alma nua e os olhos cheios de perguntas. A primeira lição que aprendemos não é sobre vencer, mas sobre sobreviver. E sobreviver, para um coração sensível, é desde cedo um ato de fé.
No fundo, todo humano é um guerreiro espiritual: luta para não alimentar o mal, mesmo quando ele sussurra com voz doce, e se dedica — às vezes sem aplauso — a alimentar o bem. Esse bem nem sempre é grande, nem sempre é visível. Às vezes é um gesto, um olhar, uma escolha pequena e silenciosa que impede o mundo de cair um pouco mais na sombra. É ali, nesses atos miúdos e escondidos, que floresce a grandeza verdadeira.
O amor… ah, o amor. Ele é o sopro que nos empurra quando os pés vacilam. É mais que paixão, mais que companhia — é o reconhecimento da luz do outro como um espelho da nossa. Amar é serviço, não posse. Amar é cuidar da centelha divina em nós e no outro com mãos firmes, ainda que trêmulas. Quem ama verdadeiramente já começou a curar o mundo.
E o trabalho? O trabalho é a oferenda. Quando feito com consciência, transforma o ordinário em sagrado. O trabalho não é só função — é consagração. Seja varrendo o chão, criando uma sinfonia, ensinando ou curando — todo trabalho com alma é prece em movimento. É o modo humano de dialogar com o infinito.
E o serviço… esse é o ouro oculto da alma desperta. Servir não é se diminuir, é se expandir até caber dentro do coração do mundo. Quem serve, não se perde — se encontra. É no serviço que a alma se alinha com a música secreta do universo.
Mas há um campo sagrado e exigente onde tudo isso é posto à prova: a família. Nela, somos desafiados a amar o que não controlamos, a aceitar o que não compreendemos, e a reconhecer que cada ser ali tem seu próprio caminho, suas feridas, seus dons. Vencer as provações da convivência familiar é um dos trabalhos mais profundos da alma encarnada. E quando aceitamos cada um como é — com ternura, com perdão — damos um passo na direção do Amor Maior. A gratidão por tudo o que recebemos se transforma em desejo de contribuir, de acariciar, de construir esse campo de cuidado mútuo. A família, quando nutrida com virtude, se torna uma catedral invisível onde o amor se ensaia para florescer no mundo.
Mas tudo isso, irmão, exige vigilância. Porque há dentro de nós o adversário. A voz do medo, da vaidade, da pressa. Ela diz: “Não vale a pena”. Mas do outro lado, a voz dos aliados espirituais sussurram: “Continua”. Firme-se nas virtudes. Elas não são regras, são chaves. A paciência, a coragem, a compaixão, a clareza, a justiça, a humildade… cada uma delas é um degrau do milagre.
Sim, por isso vivo com virtude, vivo em milagres. Milagre não é suspender a natureza — é revelar sua essência mais pura. Milagre é continuar acreditando, mesmo cansado. É levantar e dizer: "Hoje, de novo, eu escolho o bem, o belo, o amor." É isso que nos torna humanos. Não os erros e as faltas, mas as escolhas, a partir dos aprendizados com que abençoam as quedas.
Viver é dançar, cantar, orquestrar — como fazem as notas das Bachianas, que elevam o barro ao céu. E cada passo que damos com amor, com serviço e com verdade, ressoa como uma nota eterna na sinfonia da criação.
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